
Amores surdos.
Amores Surdos fala de uma família, pai, mãe, quatro irmãos e uma irmã. Logo no início um dos rapazes nos revela que no final um telefonema informará que o irmão mais velho, que mora num país longínquo, suicidou-se. Mas logo depois alguém nos diz que o cara é sonâmbulo e aí ficamos sem saber se o que ele disse foi verdade ou sonho. O irmão mais novo, criança ainda, é asmático e o outro sofre de uma síndrome do pânico. A irmã, por sua vez, fala sempre aos berros por causa dos fones de ouvido de que jamais se separa. A mãe, de tempos em tempos, reúne todos na sala para um ritual familiar: executarem juntos, coreograficamente, um número de sapateado. Nessas ocasiões, tentam achar o pai, mas ninguém sabe onde ele está. No final, uma enxurrada de lama toma conta do palco, as pessoas escorregam, caem, imundas. É quando o filho mais novo revela que há cinco anos, mais ou menos, havia trazido do zoológico um filhotinho de hipopótamo que guardou no quarto do irmão que havia viajado. Desde então o hipopótamo vive lá. E, lamentavelmente, havia devorado o pai. Quando um dos irmãos decide matar o animal, a mãe, pateticamente, grita: “Nós temos que aprender a conviver com situações novas!” – e repete histericamente a frase enquanto o telefone toca, toca, toca e ninguém atende. Uma revelação de dramaturgia num espetáculo áspero, bom como aqueles bons vinhos que deixam um travo na boca.